META HTTP-EQUIV="Content-Type" Content="text/html; charset=iso-8859-1"> Crítica à arte contemporânea - Marcos Ribeiro Ecce Ars: December 2005

Thursday, December 29, 2005

Liberdade da arte

"Quando secam os oasis utópicos estende-se um deserto de banalidade e perplexidade".
(Habermas)

Será possível os artistas e o público reaverem aquilo que lhes foram retirados; pela aristocracia da arte contemporânea?
Existe um movimento que luta e enxerga que a avant-guarde ou a vanguarda perdeu o rumo, não rompe com mais nada e que existem motivos para os controladores renunciarem, mas eles têm tanto poder que transforma aquele que tem opinião contrária a um Don Quixote lutando contra um moinho de vento.
Será que eles patentearam a cultura e só suas ideologias é que são corretas e validas?
Através da Internet conheci muitas pessoas que deliberadamente estão de acordo com o descrédito que a arte se encontra.
Segundo Affonso Romano de Sant'Anna: "as artes plásticas se apresentam( sintomaticamente) como um doente terminal."
Concordo plenamente , Por que visito exposições e o que vejo é deplorável, nem Roman Jacobson, faria uma leitura da função poética de tais coisas.
Voltando ao meu início de contato com a arte, onde fiz um curso de desenho artístico no começo dos anos 90, época que à arte ainda respirava sem aparelhos e aqui onde moro - zona norte de São Paulo- haviam várias escolas de curso livre de arte, que se aprendiam técnicas a partir de modelo natural, modelo vivo, pintura de cavalete etc. O artista desenvolvia o talento para aí sim se expressar (com exceção dos Naifs que acho de grande valor)
Mas de lá para cá, como era conveniente para os detentores do poder, por motivos mercadológicos, se apropriaram do sistema de arte, colocando à arte conceitual como arte única, levando às escolas a falência e deixando às margens o artista que só pinta e não se rende a essa banalização.
Mas como todo movimento passa e a arte contemporânea se esgotou, ela está com os dias contados, tudo indica. E então finalmente a arte reencontrará seu caminho voltado para os artistas e o grande público.
Marcos Ribeiro

ARTE NÃO É INDÚSTRIA

Um forte aplauso para quem não finge diante de um quadro: sim, claro, entendi é só um quadrado preto.
E para todos contestadores da arte contemporânea, que não tem medo de dizer: isso não é arte!
Vamos aplaudir quem é pintor, desenhista,escultor,ceramista, gravador, fotografo,músico, poeta, escritor, ator que leva arte ao alcance de todos e assim fazem um mundo melhor.
Um aplauso aos mestres: Van Eyck, Dürer, Rafael, Michelângelo, Caravaggio, Rembrandth, Goya, Delacroix,Van Gogh, Monet, Rodin, Picasso, Klee, Moore, Mondgliani, Brancusi, Matisse, Dali, Magritte, MC Escher que deixaram o extraordinário que atravessa o tempo provando que arte não tem época.
Agora um aplauso, o maior dos aplausos, para todos que fazem arte e não se preocupam em estar na moda, mesmo correndo o risco de ser ignorado pelos críticos, pelas instituições oficiais e pelo mercado.

Paráfrase do comercial coca-cola light
Marcos Ribeiro

Monday, December 26, 2005

Para que serve?


2006 está aí, mais um ano de bienal de artes internacional de São Paulo, que os cofres públicos irão patrocinar.
O que terá de arte? não sei. Mas uma coisa tenho certeza que terá: muita esquisitice.
Talvez por não ser falso o suficiente não pude ir na anterior, mas pelo que vi pela mídia, o que mais me chamou a atenção foi aquele fusca pendurado. Ah! teve também a jangada do gênial Artur Barrio.
Alguém que foi neste evento, ou é especialista, poderia me deixar um comentário, me explicando o que esse tipo de "obra de arte" trás de benefício para o país ou para a humanidade?
Outra coisa que me deixa intrigado e curioso em arte contemporânea é a body art, o que levaria uma pessoa se auto mutilar em nome da arte, seria uma mensagem para o ser humano deixar de se odiar, se matar, ou é puro e simplesmente chocar.
Acredito que para um médico-Legista que está acostumado com o ponto de nylon, não faz a menor diferença, o menor impacto.
Existem muitas definições do que é arte, deixada por especialistas, a de Renoir é um caso a ser pensado:
" Para mim um quadro deve ser agradável, feliz e bonito, sim bonito, já existem muitas coisas desagradáveis na vida, por que criar ainda mais tristeza."
Mas, aí virão os contemporâneos dizendo que não é preciso ser bonito para ser arte. Sim, mas mesmo nos pesadelos de Bosch, na fase negra de Goya ou na simplicidade de Klee, é possível enxergar o belo e o compreensível.
Marcos Ribeiro

Thursday, December 22, 2005

Duchamp está nu



Muitos defendem à arte contemporânea por que é moda, deve ser chique, mas acredito que muitos nem sabem de que se trata.
Irei usar a explicação de Terry Teachout por achar que está bem simplificada:
"Eles não acreditam na verdade e na beleza, alegando que nada é bom, real ou belo em si. Pelo contrário, “bondade”, “verdade”, “beleza” e “qualidade” são conceitos que os poderosos impõem aos fracos por propósitos políticos...Shakespeare? Beethoven? Cézanne? Meras ferramentas capitalistas, utilizadas para anestesiar as massas e escorar as classes dominantes decadentes do Ocidente."
Particularmente quando descobri essa teoria entrei em crise, quer dizer que tudo que gosto, aprecio, o poder impôs a mim, nunca tive opinião própria. Por exemplo, os momentos que apreciei O moinho de flatford de John Constable, analisando à técnica, os detalhes, sua assinatura esculpida na terra, o gênio, foi mera ilusão. As vezes que ouvi Sonata ao luar de Beethoven para relaxar o stress, estava na verdade me enganando. Quando li Os sofrimentos do jovem Werther de Goethe, menti para mim mesmo, que foi uma agradável leitura e tudo na verdade foi tempo perdido.
Então no auge de minha crise, recorri ao bom e velho René Descartes, e analisando seu método:
1º Sentidos - abstração
2º Sonhos
E o mais alto grau, a hiperbólica:
E se eu não fui criado por um Deus?
E se eu fui criado por um gênio do mal?
A partir daí cheguei à mesma conclusão : A dúvida.
Então duvidei do discurso contemporâneo e tive a certeza que não sou um fantoche e ninguém impõe para mim o que é bom, real e belo.
E se os clássicos sobrevivem atravessando séculos, sem marketing é por que tem essas qualidades, e não morrem por que são imortais.
E para a arte atual também se perpetuar tem que seguir os passos dos grandes, dos melhores, e não da mentira comprovada que os contemporâneos querem impor a nós.

Foto: Moinho de flatford de John Constable



Marcos Ribeiro

Tuesday, December 20, 2005

Versos suicidas

"É preciso combater a desordem atual ( sem esperança de sucesso ) ou se desinteressar dela ( o que equivale morrer espiritualmente ) ."
(?)
Sócrates dizia que Atenas era uma égua, e ele um mosquito que a picava para mantê-la desperta e alerta, mas o sistema de Atenas o achava um mosquito chato que existia para acabar com sua paz habitual. E todos sabem o que se faz com os mosquitos que nos picam.
O progressista é o conservador no poder, e quem tentar mudar, nunca será bem vindo, bem visto.
O sistema que controla a arte já vem sendo discutido há muito tempo ; no Brasil, Ferreira Gullar diz em seu livro argumentação contra a morte da arte :" Que a maioria dos críticos prefere calar: que o rei está nu".
Affonso Romano de Sant'Anna diz em seu livro Desconstruir Duchamp: " A melhor homenagem que podemos fazer aos mestres contestadores de ontem, é contestá- los hoje".
No Café Filosófico que foi ao ar no dia 11/12/2005, com o titulo: O novo que ficou velho e o velho que ficou novo, com o economista e especialista em educação Cláudio de Moura Castro, foi claro ao dizer que arte conceitual é o novo que envelheceu.
Poderia citar mais algumas dezenas de intelectuais que falaram e escreveram nessa linha de pensamento, mas vou parar por aqui.
O que eu tento fazer na condição de artista, é dar continuidade ao que vem sendo discutido, por que me preocupo e me indigno ao ver que em todos regulamentos de inscrição para salões todos tem o seguinte item:
A avaliação será em consideração a relevância na proposta no quadro da produção artística contemporânea.
Quando me deparo com a exposição montada me decepciono ao ver o que é essa proposta contemporânea.
Causa-me suspeita, será que não existe apadrinhamento, nepotismo?
E por que sempre tem de ser essa mesma modalidade?
Qual o papel da arte no século XXI ? No século XX diziam que era chocar, agora parece que é desagradar.
Será que sou idealista, inflexível ou é o sistema?
Tive problemas, fui odiado por falar o que penso, posso vir a ter mais problemas ainda no ciclo que convivo por que tem os que defendem o rotulo "arte contemporânea" como os mulçumanos defendem o Islã; mas tenho convicção que nunca ataquei ninguém, e sim o que fiz foi picar a arte para mantê-la desperta e viva, para que os júris que controlam os salões e os curadores as bienais, não sigam a cartilha contemporânea- ultrapassada- e sim sigam o conselho de um dos maiores historiadores que a história da arte teve:
"Não acredito na idéia de vanguarda, como não acredito em progresso na arte. Na ciência, essas idéias são aceitáveis, mas em arte o que vale é a obra encantar e provocar admiração, ou não." (Ernest Hans Gombrich)

Marcos Ribeiro
20 de dezembro de 2005

Sunday, December 18, 2005

Um anão pode enxergar além que um gigante?

Quando estudei um ano de letras, na disciplina de filosofia aprendi que "um anão pode enxergar mais além que um gigante, desde que suba em seus ombros". Foi assim na filosofia, literatura, música, ciência e arte.
Na filosofia no momento em que os filósofos da natureza começaram a duvidar e fugir das explicações mitológicas, sempre um filosofo subiu nos ombros de seu antecessor e assim mudou o pensamento da humanidade.
A ciência é um acumulo desde Galileu e Newton, passando por Einstein, e no livro mais moderno eles fazem parte.
Na música e literatura de qualidade é a mesma coisa.
Agora nas artes plásticas a um grave problema:
No Renascimento, Brunelleschi, Alberti, Donatello foram buscar na antiguidade clássica - Greco-romana- os modelos, a sabedoria dos grandes artistas o que possibilitou o surgimento dos grandes gênios do conhecimento de todos.
Passou pelo Barroco que só acumulou maneiras a mais de fazer o belo e o extraordinário.
O Romantismo também adicionou. Até chegar na modernidade, com o impressionismo, expressionismo, fauvismo, cubismo, abstracionismo, surrealismo, art nouveal, escolas que ampliaram grandiosamente o campo da arte.
Mas aí chegou o futurismo com o manifesto de Marinetti que pregava a destruição dos museus, bibliotecas e academias e que as obras de arte nem os artistas deveriam se perpetuar. Claro que esse movimento não teve futuro, mas serviu de base para surgir o dadaísmo e seu maior nome: Marcel Duchamp, que cria um estilo rejeitando todas convenções estéticas, elevando produtos industriais à condição de "obras primas" e assim abriu a porteira para o charlatarismo artístico.
Passado quase um século os ready-mades, instalações, intervenções urbanas e happenings podem ver ali sua escola, onde não é necessário ser artista para produzir uma obra, portanto se não é feito por um artista, não pode ser chamado de arte, e sim "faça você mesmo", feito para desagradar aqueles que amam a arte e deixar indiferente o grande público.
Com tudo isso quem na nova geração de artistas, que quer fazer arte arte, quem são os gigantes para subir nos ombros, deve-se pular um longo capítulo desta idade vazia e buscar lá trás, nos verdadeiros mestres, para aí sim ter sequência a grande e verdadeira arte.
Marcos Ribeiro

Saturday, December 17, 2005

ODE A DALI

O contemporâneo, por ser o Salvador da arte moderna e inspiração para salvação do pós.
A obra dele, Dali, contemporânea de nós, mas não é "arte contemporânea" que é uma página branca na história da arte, tão branca como no quadro de Malevitch.
Enfim, Salve Salvador por Salvar o pré e o pós, pois o verdadeiro artista não morre, vive dentro de cada um de nós.
Marcos Ribeiro

Criar ou se apropriar



"Um pintor pinta para se livrar de suas sensações e visões"

Partindo desse pensamento de Picasso - pintor que foi para pintura, assim como Socrates foi para filosofia- hoje no pós-modernismo essa frase perdeu a validade, pois para os controladores dos salões e bienais, a pintura está presa no corredor da morte.
Depois que liberou geral e que para produzir uma obra de arte, não é mais necessário ser artista, a pintura ficou além do último plano e só as instalações e objetos sem nexo viraram as vedetes das exposições, como na lenda de Andersen: quem não ver arte aonde não existe arte não pode dizer com o receio de passar por ignorante, mas até a coca-cola num recente comercial denunciou esse abuso: "Vamos aplaudir quem não finge diante de um quadro preto, sim, claro, entendi é apenas um quadrado preto."Isto, creio pode ser usado como metáfora: sim, claro,entendi é apenas um pano branco, um fusca, uma cama com areia, um urinol e por aí vai.
Está certo que liberou geral também na música, com os thans, dilons e os alexandres pires, esses com certeza não passarão na peneira da posterioridade, assim como 99,9% da arte contemporânea. Graças aos deuses da arte que alguns grandes mestres da pintura conseguiram passar por essas grades conceituais e assim podemos contemplar obras de artistas contemporâneos de nós, e não de artistas contemporâneos como: Dali, Bacon e Lucian Freud que pintaram para se livrar de suas sensações e visões e o grande público pode apreciar, entender e se maravilhar apenas com o olhar real, e não com a roupa imaginária do rei.
Foto: Cavolho- Marcos Ribeiro

Marcos Ribeiro

Friday, December 16, 2005

A cegueira na arte

Estou escrevendo para expressar a opinião que tenho a respeito da arte atual,conceitual, não acredito no que vejo sendo uma arte expressiva, vinda de artistas autênticos, mas sim um sistema que elege quem é conveniente para a corte.
A arte sendo um patrimônio da humanidade deveria ser democrática, e não centralizada somente em uma denominação que se intitula "arte contemporânea", que detem o poder, quem não quer fazer instalação, ready-mades, cópia da cópia de Duchamp, não se enquadra, portanto fica de fora de qualquer aparelho cultural, fica sendo um artista marginal.
A vanguarda no milênio passado contestou o sistema, e desde então o modelo segue o mesmo "o novo ficou velho", agora com embasamento em grandes nomes intelectuais irei manifestar contra aquilo que acho que está ultrapassado e necessita renovar-se.
Abaixo um texto do grande poeta, escritor, ensaísta e cronista que tem essa mesma linha de raciocínio:

Afonso Romano de Santa'Anna

A CEGUEIRA E O SABER

A conhecida lenda de Hans Christian Andersen "A nova roupa do imperador" é uma variante do tópico que estamos estudando. Aqui não se trata da cegueira biológica, senão da incapacidade de ver e do medo de enfrentar o real. O conto de quatro páginas e meia tem tal força simbólica que incorporou-se ao inconsciente coletivo da modernidade. Por isto, essa história é dada como pertencente a vários folclores, como o português, onde o menino que denuncia a nudez do rei é substituído por um estranho-estrangeiro-negro. Seja como for, quando as pessoas dizem "o rei está nu" estão denunciando o embuste em várias situações. Em relação à arte de nosso tempo essa metáfora é a mais usual. Não há estudo sobre a arte atual que não recorra a essa lenda. Por quê? Seria assunto para uma instrutiva pesquisa.

Diz a história de Andersen (1805-1875) que houve um imperador que gostava tanto de roupas novas que passava mais tempo experimentando-as do que cuidando das outras coisas do reino. (Já na abertura aparece este tópico curioso, que podemos batizar de neofilia: a paixão pela coisa nova, pela moda, pelo aspecto superficial, exterior, que fazia com que o imperador se desinteressasse da realidade de seu reino). Isto propiciou que dois espertalhões surgissem em suas terras dizendo que produziam uma roupa que não apenas tinha cores deslumbrantes, mas que possuía uma qualidade única: só pessoas muito especiais poderiam vê-la e que apenas pessoas destituídas de inteligência, que não estavam aptas para ocupar cargos no reino, iam dizer que a roupa era invisível ou que não existia.

Assim, estabeleceu-se um processo de seleção, quase um rito de iniciação pelo qual o imperador poderia testar a inteligência de seus auxiliares, pois só os escolhidos eram capazes de ver a roupa invisível que ninguém via. Os falsos tecelões simulavam tecer panos no tear e iam exigindo dinheiro e fios de ouro em troca. E como o monarca quisesse já testar a inteligência de seus auxiliares, pediu ao velho ministro que fosse ver como andavam as coisas. Lá chegando, o principal auxiliar do imperador ficou perplexo, porque os teares estavam vazios. "Não consigo ver nada!". Mas, temeroso de expressar seu sentimento, começou a ouvir a descrição que os falsos costureiros faziam do tecido maravilhoso. E ele se dizia: "Será que sou tão estúpido? Não vejo nada! Vai ver que sou inapto para o cargo que ocupo". E como temesse perder o cargo e os tecelões do nada cobrassem dele a visão que eles tinham, acabou declarando: "É maravilhoso! Que padrões! Que cores! Vou dizer ao imperador que fiquei encantado". Além da trapaça financeira, observe-se que a palavra ocupa o lugar da coisa, o conceito no lugar da obra. Não só o imperador acreditou, desde o princípio, na palavra dos arrivistas, como também o ministro, por medo e insegurança, abriu mão da sua palavra (ou visão) em benefício da palavra (ou visão) dos ilusionistas. E a cena se repete quando o imperador, para testar outro conselheiro, pede que ele faça a visita ao ateliê do nada. A reação foi a mesma. Ele não via nada. Pensou em dizer que não estava vendo nada, mas receoso de passar por estúpido e perder o emprego, partiu para os elogios a inventar verbalmente o inexistente tecido. E o mesmo vai ocorrer com o imperador quando decide ir ver a tal roupa fabulosa. Ao defrontar-se com coisa nenhuma, pensou igual ao velho ministro e ao conselheiro - "Estão me fazendo de idiota!" - mas para não passar publicamente por imbecil, já que dois de seus principais auxiliares viam no vazio coisas fascinantes, passou a exclamar "lindo, maravilhoso, excelente". Assim fechou-se o circuito de invenção verbal da coisa inexistente. Ao qual se incorporou o resto da corte quando auxiliares tiveram que fingir carregar o manto invisível no dia de sua exibição no palácio. A ousadia dos falsários leva o imperador admirar-se diante do espelho. Então, consuma-se a alucinação: "o imperador diante do espelho admirava a roupa que não via". Assim, toda a corte passou a se curvar diante do inexistente com a anuência do imperador e seus auxiliares. "Nenhum deles queria admitir que não estava vendo nada, pois se alguém o fizesse estaria admitindo que era estúpido ou incompetente. Nunca uma roupa do imperador fez tanto sucesso".

E como termina a história? No folclore português, ao invés de auxiliares competentes da versão de Andersen, só os "filhos legítimos" poderiam ver a roupa invisível do rei. Seria, como em outros mitos, a senha da legitimidade para sucessão no trono. Desta feita quem denuncia o embuste é um estranho-estrangeiro-negro. Na lenda de Andersen é uma criança - essa espécie de olhar estranho e virgem - que, descompromissada, grita em meio à multidão: "Ele está sem roupa!". O povo começa a abrir os olhos e concordar com a visão do garoto. Enquanto a multidão gritava, o imperador acuado pensava: "Tenho que levar isto até o fim do desfile. E continuou a andar orgulhoso e, com ele, dois cavaleiros e o camareiro real seguiram e entraram numa carruagem que também não existia". É um belo final irônico, em aberto.

Noutras versões menos instigantes, que até circulam na internet, o rei ficou envergonhado de ter se deixado levar pela vaidade, arrependeu-se e desculpou-se, enquanto os falsos tecelões foram enganar outros em outros reinos, até serem presos e condenados.

Essa é uma lenda sobre um pacto de não-ver, onde toda uma comunidade brinca de avestruz enquanto alguém lucra com a cegueira estimulada. E porque todos têm medo da opinião (ou visão) do outro, todos deixam de ver (e ter opinião). É um caso de cegueira social. Isto ocorre, visivelmente, nas agremiações políticas e religiosas: a produção de um discurso que ordena o que deve ser visto ou não. No caso de grande parte da arte contemporânea isto é um caso de voluntária cegueira artística, próximo do que La Boetie chamava "servidão voluntária". Pode-se perguntar: mas afinal, já que tanta gente é capaz de descrever as sutilezas da inexistente veste real, o rei está ou não está nu? Está e não está. Como diria Nathalie Heinich, "o rei está vestido pelo olho do outro". A linguagem pode ocultar ou desvelar. E esse é um jogo difícil e perigoso de se jogar