Contradições da dita “Arte”
“A fotografia assumiu o gosto da vingança dos pintores fracassados.
(...) Um Deus vingador atendeu os pedidos dessa multidão.”
(Baudelaire)

Imagem: Vai-Vai, com 21 caixas de som e três burros-
obra de Nuno Ramos
Marcos Ribeiro
02 de abril de 2006
(...) Um Deus vingador atendeu os pedidos dessa multidão.”
(Baudelaire)

Das duas vezes que visitei a Pinacoteca de São Paulo esse ano, cada vez com um atrativo diferente. Diferente em todos sentidos:
Na primeira denominada Lygia Clark- Do objeto ao acontecimento, o evento foi uma espécie de brincadeira , por exemplo: tinha um túnel de plástico ( onde muitos entravam e saiam dando risadas), tinha também: luvas, bolinhas, roupas de borracha etc. E muitos diziam: mas, isso não é arte. Sim, é óbvio, isso não é arte, é antiarte, a arte oficial que é chamada de arte contemporânea, mas que é bem mais antiga do que a televisão.
Também logo na entrada e por toda Pinacoteca, havia cartazes de publicidade do evento, enormes, para elevar a artista a um status de pop star, “tão muito para tão pouco” , como se alguém estivesse forçando, obrigando para todos aceitar que aqueles objetos corriqueiros são arte. Estudantes de artes não ir a esse evento é sacrilégio.
Isso me levou a pesquisar o sentido da palavra: Anti, que significa contra, oposição; a antiarte foi criada para contestar os valores estéticos consagrados e os museus, e hoje caiu na mesma armadilha se consagrando e se museuficando . Depois analisei outra palavra: Pinacoteca que significa coleção de quadros e obras de arte. Então cheguei a seguinte conclusão: essas coisas da Lygia Clark sendo antiarte jamais deveriam estar num espaço que existe para abrigar arte.
Seria viagem perdida se eu não aproveitasse que estava ali para ir ver os quadros do Almeida Junior, as esculturas de Rodin e tantas outras maravilhas do acervo permanente.
Mas de todas as asneiras da exposição da Lygia Clark, teve algo de bom: uma sala com vídeos de depoimentos de críticos e artistas , onde pude assistir o consagrado Ferreira Gullar que com sua coragem peculiar criticava “ferrenhamente” a dita arte contemporânea e até a Lygia Clark.
Algumas semanas depois soube da exposição “ Luz e sombra- na pintura italiana entre o Renascimento e o Barroco. Que contou com artistas como nada mais, nada menos que: Ticiano, Tintoretto, El Greco, Veronese, Ribeira entre tantos outros numa nota bem discreta no jornal”.
Ao chegar na Pinacoteca a primeira diferença: Nada de alarde ou a fanfarrice que havia na exposição da Lygia, na sala que estava a exposição outra diferença: A sensação de sagrado, o silêncio do público, reflexão, contemplação, admiração e o espanto diante de tanta beleza.
Isso me confirmou que o chavão que a fotografia matou a pintura não passa de um clichê. Nem Cartie Bresson que foi considerado o olho do século com suas fotos históricas seria capaz de parar um momento, paralisar o tempo num instante mágico como na pintura de um mestre.
A satisfação nas pessoas que ali estavam era notório, a certeza de estar vendo arte é incontestável. Os momentos que permaneci na exposição me purificou de todas as angustias do mundo moderno, elevou meu espírito e não é como uma exposição de arte contemporânea, onde saio do mundo do horror e eles jogam mais horror em cima de mim.
Com tudo isso ficam as seguintes questões: o que é melhor para o ser humano; a arte ou a antiarte? O belo ou o horror?
Na minha opinião os burros do artista Nuno Ramos são a resposta:
Eles são o retrato dos artistas e dos controladores da arte contemporânea.
obra de Nuno Ramos
Marcos Ribeiro
02 de abril de 2006


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