Desconceituando à arte contemporânea


“ Os artistas estão mortos e os vivos não existem.”
Uma das grandes questões filosóficas, é se existe uma verdade absoluta. No universo dos defensores da arte contemporânea isto não é mais questão, é fato: arte só se for “contemporânea” e não no sentido de ser uma arte do nosso tempo, como muitos confundem, mas como um rótulo criado pela casa de leilão Christie’s, no inicio dos anos 1970.
Até então uma obra de arte era: Talento. Exigência de arte, que foi substituído por conceito e por qualquer objeto, quer seja industrial ou deslocado da natureza.
O que antes era transformar o subjetivo do artista em realidade por meio da pintura, como um significado dado por Van Gogh a uma cadeira apenas pelo uso da cor ao exteriorizar a tristeza da extrema solidão (Cadeira com cachimbo de Van Gogh – 1888).Já na dita “arte contemporânea” Joseph Kosuth se torna um ícone da arte conceitual ao apresentar como obra de arte a descrição do dicionário de uma cadeira colocada ao lado da própria e de sua foto( Uma e três cadeiras – 1965).
É certo que a Christie’s, não é a única culpada de tudo isso, o charlatanismo artístico surgiu a partir do momento em que Marcel Duchamp comprou uma louça sanitária numa loja e a transformou em objeto de contemplação, A fonte – 1917, que ganhou o mesmo status de Davi de Michelangelo, seria “risível” se não fosse erudito ter que aceitar como objeto de arte apenas um urinol.
Com a morte de Salvador Dali em 1989 e Francis Bacon em 1992 é enterrada também a pintura figurativa.
A empulhação artística se consolida de vez. A técnica e o talento se tornam obsoletos, a esquisitice e a extravagância é o que se fixa como padrão até os dias atuais.
A pintura desaparece dos salões e bienais, o belo e o expressivo dão lugar ao bizarro e o cinismo.
Estou sendo radical ou não é esquisita uma jangada, e não é extravagante 3.475 toras de madeiras, ambas expostas na bienal de 2004. E de toda a produção que ali foi apresentada, o que será transmitido em épocas vindouras? Esse tipo de arte atinge a emoção? Causa algum impacto nos sentidos? Na minha opinião e na de muitos é frio, mecânico, inútil e sem nenhuma conseqüência.
Justificativas de que o mundo mudou e com isso mudou a arte, criam- se paradigmas para deixar na marginalidade os pintores que insistem em pintar figuras e que se inspiram nos grandes mestres.
E os amantes das artes plásticas que apreciam pintura, não tem o direito de conhecer as novas produções se elas não forem as aceitas pela moda artística.
Estou enganado ou isto não é uma forma de repreensão e opressão?
É isto que Afons Hug o ditador da arte no Brasil, chama de território livre? Que foi o tema da ultima bienal.
A mesma bienal por onde já passou Pablo Picasso, Cândido Portinari, Lasar Segall, Diego Rivera, Jackson Pollock e René Magritte, hoje têm que se contentar em ver os quadros medíocres da carioca Beatriz Milhazes e do belga Luc Tuymans, e as entendiantes instalações, intervenções e performances.
E se você não entende nada disto, não entre em pânico, é propositadamente hermético para ninguém entender, entender para que? Se entendessem deixaria de ser arte conceitual, e todos veriam que arte contemporânea é exclusivamente mercado- ou supostamente lavagem de dinheiro, se não, como explicar uma cama desarrumada e sobre ela garrafas de vodca e camisinhas da performer Tracey Emin, ser vendida por 225 mil dólares, qual o sentido disto? quem iria a uma galeria ver está cama ou usa-la como decoração na sala; será que está genial obra de arte ainda existe?
Com tudo isso muitos se perguntam como tais artistas se tornam ricos e famosos apresentando cadeiras, carros, roupas, garrafas, e até vislumbram alcançar essa gloria.
O que poucos sabem é que o valor da obra não implica se ela é boa ou ruim, mas sim por onde ela passou, quem a justificou, começando pelo Marchand que vincula o nome do artista a grandes galerias e grandes museus, e por fim o crítico famoso que escreve sobre o artista. Marketing infalível para abrir as portas das instituições oficiais e do mercado nacional e internacional.
Assim se fabricam os mitos da arte contemporânea, que podem ser comparados a santos religiosos, por que é preciso fé para crer no invisível e para enxergar arte aonde ela não existe.
Duchamp que quis criar a antiarte, e foi aceito na época como uma inovação, deixou vários herdeiros, que passou pela pop arte de Andy Warhol e a arte conceitual de Joseph Beuys, e hoje, depois de várias gerações, ainda está sacramentada como arte única e verdadeira, se tornando acadêmica em todas faculdades e escolas de arte. E que é defendida com veemência por seus seguidores, afinal houve uma democratização do que antes era para poucos e hoje qualquer pessoa pode ostentar o titulo de artista contemporâneo, basta falar que qualquer coisa é arte.
Goya, Caravaggio, Delacroix, Velásquez e Jhon Constable, nem pensar, quanto menos ver melhor, vai que alguém se sinta afetado pela beleza e a linguagem universal e comece a contestar a roupa invisível do rei, e impeça a erradicação da doença que se chama arte, pois o feio, a ironia é o que está em voga.
só que, entre arte contemporânea e arte autêntica existe uma diferença inexorável:
Uma “coisa” fora dos museus e galerias é apenas uma coisa.
Uma boa pintura fora dos museus e galerias continua sendo uma boa pintura.
Espero que não aconteça comigo o que aconteceu com Spinoza, quando ele contestou a religião de sua época, ser esfaqueado pelas costas. Spinoza que não costurou a camisa e quando as pessoas o questionavam por que motivo, ele dizia: para não esquecer o quanto é perigoso pensar.
* Marcos Ribeiro *
20 de fevereiro de 2006

