META HTTP-EQUIV="Content-Type" Content="text/html; charset=iso-8859-1"> Crítica à arte contemporânea - Marcos Ribeiro Ecce Ars: June 2006

Monday, June 26, 2006


"Atualmente não existe -em arte-nada mais descontemporaneo do que a arte contemporânea” ·

(Oriebir Socram)

Wednesday, June 14, 2006

“A arte contemporânea é como um rio poluído, que há algum tempo foi cristalino. O próprio homem o poluiu com lixos. E hoje ninguém mais pode nadar em suas águas nem contemplar a sua beleza”.

Marcos Ribeiro

Saturday, June 03, 2006

AS FORMAS DO FALSO: DESCONCEITUANDO A “ARTE CONTEMPORÂNEA II ”


AS FORMAS DO FALSO: DESCONCEITUANDO A “ARTE CONTEMPORÂNEA II”

Marcos Ribeiro
“Isso implica, por exemplo, a liberdade de pensar que a ‘Gioconda’ é um quadro muito ruim. É melhor ter uma opinião pessoal pela qual estou pronto a combater do que não ter opinião nenhuma. A massificação conduz ao desaparecimento do julgamento pessoal”.[1]
Com o surgimento da primeira guerra mundial, artistas traumatizados com a civilização questionaram os valores artísticos ocidentais que foram estabelecidos a partir do Renascimento, valores que foram buscados na Antigüidade clássica greco-romana- onde foram criadas as direções da arte: à imitação da natureza, a posição e a função do artista na sociedade.
Após o primeiro manifesto artístico dos futuristas em 1910, assistimos ao desencadeamento de diversos ismos: O dadaísmo, surrealismo, vortcismo, suprematismo etc.
Mas foi o dadaísmo quem mais influenciou a arte desde seu surgimento, em 1916, até os dias atuais, com a sua pregação niilista, como na frase de Paul Dermée: “Dada mata Deus! Dada mata tudo! Dada antitabu” .[2]
E com a estratégia do deslocamento que Marcel Duchamp introduziu na produção artística, fato ocorrido em 1917, quando enviou a uma exposição um urinol com a assinatura R.Mutt (nome de uma empresa que fabricava artigos sanitários), criando com esse gesto o primeiro ready- made, estabeleceu-se assim, com a ajuda de pessoas influentes no mundo da arte, que o espaço é que define o valor estético da obra, independente de se tratar de um objeto industrializado ou não.
Mesmo com o fim do Dadaísmo como atividade de grupo por volta de 1921, continuam os profetas anunciando a morte da arte, como Joseph Bueys que afirmou que “Toda e qualquer pessoa pode fazer arte”.[3] Ou seja, basta qualquer um dizer que alguma coisa é arte (seja um copo, uma mesa, um cavalo, uma árvore, uma pá de neve), que estará realizando uma obra de arte. Nesse pressuposto encontra-se a idéia de que estava decretado o fim do fazer humano e da técnica, como no caso do desenho e da pintura. Morte que às vezes é negada por pintores como Edward Hopper, Francis Bacon, Lucian Freud, David Hockney, Giorgio Morandi, conseguindo contrariar o mercado das vanguardisses cerebrinas e conseguindo se consagrarem gozando do mesmo status dos antigos mestres da pintura.
Mas a ausência de valores é o que predomina no universo dos modernos controladores das artes, como observou Teary Teachout:

"Eles não acreditam na beleza, alegando que nada é bom, real ou belo em si. Pelo contrário, “bondade”, “beleza”, e “qualidade” são conceitos que os poderosos impõem aos fracos por propósitos políticos. Portanto, não pode haver grande arte nem grandes artistas (com exceção de Marcel Duchamp, o santo padroeiro do pós- modernismo e sua figura exemplar). Shakespeare? Beethoven? Cézanne? Meras ferramentas capitalistas, utilizadas para anestesiar as massas e escorar as classes dominantes decadentes do Ocidente. Para o pós-modernista o acaso é tão bom quanto à ordem, o barulho é tão bom quanto à música e todas as declarações artísticas são feitas na mesma forma, embora aquela feita pelos fracos fosse mais iguais que as outras."[4]

No Brasil um dos movimentos que mais se aproximaram das vanguardas européias foi o Movimento Concreto que teve seus primeiros indícios em 1952, adeptos dos parâmetros encontrados no Neoplasticismo de Mondrian e Vatergerloo, no Suprematismo de Malévitch e nas concepções estéticas de Theo Van Doesburg. Uma idéia traduz o lema dessas correntes:




“Um quadro concreto é para ver, não para pensar, a composição observada no quadro deveria corresponder, exatamente, aquilo que o artista concebeu no projeto original da obra”.[5 ]
Mas foi no movimento que se sucedeu, o Neoconcretismo, que surgiram os grandes ícones da arte brasileira, quando as experiências da Ligia Clark e Hélio Oiticica desbordaram dos limites tradicionais da expressão pictórica, escultórica, para criar uma coisa nova na linguagem moderna da arte.A partir daí o que se fixa como arte das bienais, salões e galerias é a chamada “arte contemporânea”, onde a presença de Marcel Duchamp continua tão forte hoje quanto na remota época dos anos 20... do século passado.
Uma questão se impõe: o que é arte contemporânea?Se o futurismo teve como mentor Marinetti, o surrealismo André Breton, o abstracionismo Kandinsdy e Paul Klee, o cubismo Picasso e Braque, onde surgiu o nome arte contemporânea?
Affonso Romano de Sant’Anna nos explica:

“Foi posto em circulação pela Casa de Leilão Christie’s em torno dos anos de 1970, por razões de marketing e não por críticos e teóricos... apoderando autoritariamente da”contemporaneidade” exilando quem não adere a esse falso passadismo”.[6]
Existe uma falsa idéia (passadista), que se tornou um chavão usado até hoje pelos supostos “artistas contemporâneos”, de que com a invenção da fotografia não existe mais necessidade da pintura como cópia da natureza ou referência das realidades figurativas. Essa idéia, no entanto, é combatida por críticos de arte consagrados, como Ferreira Gullar que diz sobre o desenho:

O desenho é que permite ao artista penetrar na intimidade do real, tocar- lhe a cerne, estripa-lo, reestruturá-lo, transforma-lo. E, além disso, saber desenhar é possuir a realidade, de poder inclusive inventar sucedâneos. O desenho estabelece a ligação entre o mundo objetivo e a imaginação, entre a realidade e o sonho. Entre o universo individual e o universo social. [7]

Também Daniel Piza reflete sobre a instalação e a pintura:

Só se sabe que é fácil, ah como é fácil, fazer uma instalação e, com dois ou três segundos de observação (o olho assimila informações mais rápido do que se pensa), sentar e escrever uma "Britannica" em cima dela - assim como em cima de um toldo de padaria, ou de um buraco de agulha. A diferença é que a instalação está numa galeria ou museu. Mais uma vez, nada mais antimodernista - porque o moderno sempre se voltou contra a sacralização da arte em museus e galerias.
(...) uma pintura não dispensa conceitos, mas também não sobrevive deles. Fala direto à percepção, que é, biologicamente, uma relação entre a sensibilidade (sistema límbico) e o intelecto (córtex). Não dá para "negar" o sistema límbico; não dá para negar a reação química que uma imagem aciona assim que chega à retina. Disso se conclui, por exemplo, que, como o olho possui estrutura harmônica, não é à toa que temos um "senso" harmônico - um gosto pela harmonia, ora bolas.
[8]
Pensemos no paradoxo disto: nas exposições de arte contemporânea, enquanto muitas vezes as obras são feitos com material precário e de forma precária (lixo, coisas corriqueiras, desarmonia), já os catálogos, por sua vez, são confeccionados em alto padrão de luxo: papéis de altíssima qualidade, harmonia no design, preço exorbitante, que acabará muitas vezes enfeitando a estante de quem a comprar, não havendo a ausência de valores, mas a troca deles.


“Quando eles aparecem em leilões da Sotherby’s, em geral, são os próprios brasileiros que os colocam lá. Eles pagam US$ 1,5 mil para ter uma imagem da obra reproduzida no catalogo.É, no fundo, uma estratégia de mercado.” [9]

A arte contemporânea é hermética?
Para corroborar com o cartaz que Affonso Romano de Sant’Anna viu colado num tapume ao sair do Museu D’ Orsay com os dizeres:
“ Le grand public ne s’interesse pas à l’art contemporaine. Est- ce lês artistes contemporains s’interessent au grand public? “[10]
Fiz uma pesquisa com alunos do segundo e terceiro ano do ensino médio de uma escola publica, colocando a seguinte questão:
O que é arte contemporânea?
E nenhum dos alunos deu uma resposta satisfatória, que se aproximasse minimamente da realidade.
Que realidade é está ? A de arte que surgiu com Duchamp com seus ready-mades, passou pela arte conceitual de Joseph Kosuth, dito artista pensador, a pop arte de Andy Warhol que comprava arte no super mercado, as intervenções urbanas de Christo Javacheff e suas cortinas espalhadas pelas cidades, as estranhas body arts, como a do artista Rudolf Acwarzkogler que anunciou ter amputado o pênis polegada por polegada e as tripas com sangue do neoconcreto Hélio Oiticica.
Qual o papel da arte?
Fazer o ser humano refletir sobre e com a arte para buscar um mundo melhor?
Ou a arte tem de ser hermética e elitista para não fazer sentido nenhum?
Desde o final das grandes guerras, da guerra fria, da morte da arte, da morte de deus, da morte do homem, muitas coisas mudaram, e a arte que ajudou a transformar o mundo desde o Renascimento, hoje se paralisou diante da guerra do século XXI: O terrorismo fundamentalista religioso e criminoso.
[1] PHILIPE, Dagen .”Nas casas da correção” . Mais . Folha de São Paulo . pág. 07 . set. 2002
[2] SANT’ ANNA, Affonso Romano de.(2006) “Duchamp e o dada”.
http://www.digestivocultural.com/ensaios/ensaio.asp?codigo=144
[3] GULLAR, Ferreira . “A forma e o novo” . Livro aberto . Opinião . pág.10, out. / nov. de 1996
[4]TERRY,Teachout.(2003)“À volta da beleza”.
http://usinfo.state.gov/journals/itsv/0403/ijsp/teachout.htm .
[5] Documentação e História . http://www.artbr.com.br/casa/ .
[6]SANT’ANNA, Affonso Romano de, “Desconstruir Duchamp”, Arte na hora da revisão. Rio de Janeiro : editora Vieira e Lent , 2003, pág. 127
[7]GULLAR, Ferreira, “Argumentação Contra a Morte da Arte”, editora Revan, 1993, pág. 149
[8]PIZA, Daniel.”Gullar enterra arte contemporânea”
(1993) http://www.revan.com.br/catalogo/0058a.htm .
[9] Sousa, Ana Paula . “Técnica. Pra que?”.In: Carta Capital.n.355, pág. 50-53, 17 de ago. de 2005
[10] SANT’ANNA, Affonso Romano de, “Desconstruir Duchamp”, pág 51



Desembaraçando esses equívocos, uma boa pintura nunca é a mesma quando se observa pela segunda vez, a cada novo olhar desperta um novo sentimento no expectador. No caso da arte intelectual contemporânea, que vemos nos salões e bienais onde sempre existe a busca obsessiva do novo, de causar impacto e chocar o público, por exemplo nas obras da 26ª bienal de São Paulo: um fusca pendurado por fios frágeis do artista austríaco Leo Schatzl, uma vez decifrado isso, qual a reflexão que se pode ter a posteriori? As 3.475 toras de madeira que estrategicamente ali estavam do artista catarinense Ivens Machado, que conseqüência trás para a humanidade?
Na música, onde porcarias são despejadas aos montes para o povo, e que, com forte investimento e marketing, fazem, por exemplo, um RBD e uma Tati Quebra Barracão se tornarem sucesso da noite para o dia.
O mesmo ocorre com as artes plásticas (ou artes visuais, como muitos agora chamam): criada por pessoas sem nenhuma aptidão, essa arte é vastamente divulgada, fazendo com que as pessoas a vejam como coisa sem nexo para estarem nos espaços sagrados artísticos. O mesmo quando ingressam nas escolas de arte, seguindo a moda e, se tiverem conhecimento com críticos famosos para escrever nos catálogos e nos jornais, têm grande chance de ingressarem para o grupo das grandes almas, grandes almas que antes necessitavam de talento, grande tempo de aprendizagem de técnica, e se tivessem uma boa imaginação criativa poderiam alcançar êxito.
Hoje o artista não mal aprende a construir e já sai destruindo, transgredindo e como é regra ditada por hierarquias, críticos e curadores, por receio, não falam nada; o público acata por falta de informação e medo de ser chamado de reacionário, antiquado ou passadista.
Outra questão se impõe: a arte contemporânea é exclusivamente mercado?
Se for levado em consideração a denuncia feita por vários escritores como na matéria que revista Carta Capital fez, poderemos chegar a uma conclusão sobre os mitos da arte contemporânea: