A MALDIÇÃO DE PLATÃO

“Mas as sereias têm uma arma
Muito mais terrível que seu canto:
O seu silêncio.”
Franz Kafka
Muito mais terrível que seu canto:
O seu silêncio.”
Franz Kafka
Imaginemos que até o começo do século XX, as pessoas viviam acorrentadas no interior de uma caverna, atrás delas queimava uma fogueira, e à arte que todos contemplavam eram às sombras ( ou sonhos) que refletiam do mundo real.
A arte até então não era o realismo, do mundo, mas às sombras da alma e do coração dos artistas.
O público que ali vivia, sonhava com as dores do poeta, com a imaginação criadora dos pintores e escultores, se condoíam das angustias dos escritores, choravam com as notas musicais que o músico exaltava.
Até que um dos habitantes da caverna se libertou das correntes e saiu para o encontro do mundo real, descobriu que a arte deste mundo real não é a do ideal greco-renascentista-romântico, mas a da razão, do cerebral, ou resumindo em uma única palavra: do conceito.
Ele vê que à arte da época não responde as questões humanas, apenas engana. Assim esse fugitivo procura algo que possa representar a realidade, apanha um urinol e leva aos habitantes da caverna.
Ao retornar, mostra o urinol e a sombra do mesmo na parede, em seguida joga fora a peça sanitária, e diz que o que eles vêem na parede são mera ilusão, e o que de fato existe é a idéia da obra de arte que representa o mundo real, sem transcendentalismo, mas tal como ela é.
Todos acreditam nele, exceto os artistas que por isso são assassinados.
A partir de então todos buscam o seu urinol perdido, uns o representam por guarda-chuvas, outros por perucas, outros coiotes, e outros se auto mutilam e etc.
Muito bem, todos perceberam que fiz uma paródia do mito da caverna de Platão escrita entre 427 e 347 antes de Cristo. Será que ele imaginaria que seu projeto de expulsar os poetas e os artistas e deixar no mundo apenas a razão se concretizaria e se consolidaria de fato a partir da metade do século XX ?
Sim Platão, A poesia está morta; você venceu! Todos adoram o seu mundo-verdade, das igrejas e das bienais, sobrou é certo, poucos que ainda vivem no mundo das sombras, os “errantes loucos anacrônicos”, que festejam a angústia da existência na arte do passado, que negam a pós-modernidade, esta anestesia na realidade, da ciência e da razão.
Nós, os loucos; que cultuamos Dioniso na irresponsabilidade da pintura, da poesia e da filosofia.
Nós os loucos que dizemos para a razão: sair da caverna pra que?
Pra que abandonar Dostoiévski para ir ver a Bienal, que faz a mesma denúncia dos telejornais sangrentos?
Que só gritam e na realidade não resolvem nada.
O que, meu caro; você me chama de desatualizado? Me atualizo lendo Homero, Horácio, Spinoza, Shakespeare, Erasmo, este último que diz algo semelhante em seu Elogio da loucura:
“ Que diferença há entre aqueles que, na caverna de Platão, contemplam as sombras e as imagens dos objetos, nada mais desejado e satisfeitos com isso, e o sábio que saiu da caverna e viu as coisas como realmente são?
Se Micilo de que fala Luciano( Personagem do livro O sonho ou o galo. O paupérrimo Micilo sonhou que ficara rico e que estava desfrutando de toda sua riqueza, quando um galo o despertou com seu canto. Ao ver seu belo sonho interrompido, ficou tão furioso que quase matou o galo), tivesse podido continuar para sempre em seu sonho dourado, em que figurava como rico, que outra felicidade podia almejar?”
Sim, nós que cultuamos a arte somos como Micilo, ficamos na caverna sonhando dentro do sonho, rejeitamos a razão por sermos loucos, poetas, anacrônicos*, e por que não dizer: Felizes!
Marcos Ribeiro
Primavera de 2008
*Anacrônico: em que está em desacordo com a moda, avesso aos costumes atuais.
Imagem: caverna de Platão (Soccio, 1995)


3 Comments:
tem muitos bons músicos por aí, que muita gente conhece até - mas não a massa. vc é que parece estar meio preso à mídia de massa, só fala de calypso, pastor evangélico, que esquisito...
bom, procure esses caras (só pra citar alguns):
nathan fake
telefon tel aviv
jazzanova
cobblestone jazz
kevin yost
mark hawkins
quasimodo jones
alguns são bem experimentais e talvez vc estranhe numa primeira audição, já que parece pouco habituado.
a industria cultural está mudando e vc não precisa esperar novidade na tv ou no radio, agora vc tem muitas escolhas (mas não se afogue nelas).
Carol, você prestou atenção no final do meu texto?
"mas ainda existem alguns músicos escondidos que ainda sã o autênticos, que nos dão a música com ênfase a melodia, a poesia, a reflexão..."
A indústria cultural mudou: pra pior, basta ver o sucesso do Funk carioca.
Estamos vivos! somos a mosca na sopa de um conceito morbido e mentiroso de uma arte de conceitos.
sempre existirá luz no fim do tunel, e os novos artistas como eu: Amará sempre a poesia,e com qualidade pertubará e muito essa loucura na arte de mercado.
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