META HTTP-EQUIV="Content-Type" Content="text/html; charset=iso-8859-1"> Crítica à arte contemporânea - Marcos Ribeiro Ecce Ars: November 2008

Sunday, November 09, 2008

A MALDIÇÃO DE PLATÃO


“Mas as sereias têm uma arma
Muito mais terrível que seu canto:
O seu silêncio.”

Franz Kafka


Imaginemos que até o começo do século XX, as pessoas viviam acorrentadas no interior de uma caverna, atrás delas queimava uma fogueira, e à arte que todos contemplavam eram às sombras ( ou sonhos) que refletiam do mundo real.
A arte até então não era o realismo, do mundo, mas às sombras da alma e do coração dos artistas.
O público que ali vivia, sonhava com as dores do poeta, com a imaginação criadora dos pintores e escultores, se condoíam das angustias dos escritores, choravam com as notas musicais que o músico exaltava.
Até que um dos habitantes da caverna se libertou das correntes e saiu para o encontro do mundo real, descobriu que a arte deste mundo real não é a do ideal greco-renascentista-romântico, mas a da razão, do cerebral, ou resumindo em uma única palavra: do conceito.
Ele vê que à arte da época não responde as questões humanas, apenas engana. Assim esse fugitivo procura algo que possa representar a realidade, apanha um urinol e leva aos habitantes da caverna.
Ao retornar, mostra o urinol e a sombra do mesmo na parede, em seguida joga fora a peça sanitária, e diz que o que eles vêem na parede são mera ilusão, e o que de fato existe é a idéia da obra de arte que representa o mundo real, sem transcendentalismo, mas tal como ela é.
Todos acreditam nele, exceto os artistas que por isso são assassinados.
A partir de então todos buscam o seu urinol perdido, uns o representam por guarda-chuvas, outros por perucas, outros coiotes, e outros se auto mutilam e etc.
Muito bem, todos perceberam que fiz uma paródia do mito da caverna de Platão escrita entre 427 e 347 antes de Cristo. Será que ele imaginaria que seu projeto de expulsar os poetas e os artistas e deixar no mundo apenas a razão se concretizaria e se consolidaria de fato a partir da metade do século XX ?
Sim Platão, A poesia está morta; você venceu! Todos adoram o seu mundo-verdade, das igrejas e das bienais, sobrou é certo, poucos que ainda vivem no mundo das sombras, os “errantes loucos anacrônicos”, que festejam a angústia da existência na arte do passado, que negam a pós-modernidade, esta anestesia na realidade, da ciência e da razão.
Nós, os loucos; que cultuamos Dioniso na irresponsabilidade da pintura, da poesia e da filosofia.
Nós os loucos que dizemos para a razão: sair da caverna pra que?
Pra que abandonar Dostoiévski para ir ver a Bienal, que faz a mesma denúncia dos telejornais sangrentos?
Que só gritam e na realidade não resolvem nada.
O que, meu caro; você me chama de desatualizado? Me atualizo lendo Homero, Horácio, Spinoza, Shakespeare, Erasmo, este último que diz algo semelhante em seu Elogio da loucura:
“ Que diferença há entre aqueles que, na caverna de Platão, contemplam as sombras e as imagens dos objetos, nada mais desejado e satisfeitos com isso, e o sábio que saiu da caverna e viu as coisas como realmente são?
Se Micilo de que fala Luciano( Personagem do livro O sonho ou o galo. O paupérrimo Micilo sonhou que ficara rico e que estava desfrutando de toda sua riqueza, quando um galo o despertou com seu canto. Ao ver seu belo sonho interrompido, ficou tão furioso que quase matou o galo), tivesse podido continuar para sempre em seu sonho dourado, em que figurava como rico, que outra felicidade podia almejar?”
Sim, nós que cultuamos a arte somos como Micilo, ficamos na caverna sonhando dentro do sonho, rejeitamos a razão por sermos loucos, poetas, anacrônicos*, e por que não dizer: Felizes!

Marcos Ribeiro
Primavera de 2008


*Anacrônico: em que está em desacordo com a moda, avesso aos costumes atuais.
Imagem: caverna de Platão (Soccio, 1995)