A MÚSICA COMO ALIENAÇÃO

“A música deveria inflamar o coração do homem e trazer lágrimas aos olhos da mulher.”
(Beethoven)
Desde que a arte se tornou ideológica, ou seja, a obra deixou de ser um produto artístico estético para se tornar apenas uma ideia. Aliada a ideologia capitalista, a indústria cultural pelos meios da comunicação de massa passou a determinar os modismos, as escolhas e a manipulação do gosto, criando com isso seus deuses e reis.
Na música, considerada por Schopenhauer como “arte suprema”, no século XX com a invenção do disco e do rádio, ela aos poucos começou a se tornar acessível, se globalizando e com isso começou a aparecer os primeiros artistas pop.
Assim como a Alemanha nos séculos passados produziu alguns dos maiores compositores da música erudita, os Estados Unidos por sua vez foi o que mais criou os gênios da música nas últimas décadas, seguida pelos ingleses, mas estes para se afirmarem tinham que se consagrarem em solo americano.
É inegável a contribuição para a cultura à criação dos estilos surgidos na América: O Jazz, o Blues, o Soul, o Rock, o Country. Gêneros que evoluíram e muitas vezes se misturaram para se tornar à base de quase toda música ocidental.
Hoje com as mudanças que ocorreram no mundo a partir das revoluções tecnológicas é impossível dizer que ainda nascerá um fenômeno tal como foi os Beatles, Pink Floyd, Frank Sinatra, Elvis Presley, James Brown, Stevie Wonder entre tantos outros que marcaram seus nomes como clássicos do pop.
Porém, destes que foram grandes nomes e ainda continuam vivos, nem eles conseguem ser eles mesmos, como se suas mentes se atrofiassem para a criação, mas que mesmo assim continuam insistindo em manter o rótulo de pop star, quando gravam um disco novo não conseguem ser nem a sombra dos que foram e quando fazem shows são os famosos “caças níqueis” principalmente nos países de terceiro mundo.
Como é difícil um musico de talento no Brasil ganhar dinheiro, e como é fácil esses velhacos arrastarem multidões a estádios de futebol vendendo apenas a ideia do grande artista que eles foram e não a arte propriamente dita, digo não a arte porque eles mesmos a banalizam transformando-a apenas em industria.
Deleuze disse, a imanência é uma vida, assim então podemos afirmar: como não são chatos, John Lennon, Jimmy Hendrix, Jim Morrison, Janis Joplin, que morreram jovens. Não seria nenhum absurdo dizer, os mortos parecem que estão vivos e os vivos parecem que estão mortos, para dar exemplos brasileiros, esses dias ouvindo Renato Russo me dei conta que já faz mais de uma década da sua morte, como? Parece que foi ontem. O mesmo pode-se dizer de Cazuza: sempre jovens é agradáveis.
Outro fator que no Brasil colabora para a subsistência do artista da musica acima da média é o desprezo da grande mídia, assim por não fazerem parte do gosto do senso comum, a obra, por exemplo, de um Tim maia ou Raul Seixas permanece intacta da degradação.
Seguindo essa reflexão de mortos e vivos, creio eu não ser apenas uma questão de opinião, mas de bom senso, o asco que se tornou o “rei” Roberto Carlos e já faz algum tempo, ele seria muito mais ouvido e respeitado se tivesse parado nos anos 80 do século passado.
Chega a ser inaudível suas parcerias com Daniel, Padre Marcelo, Padre Maria e o não menos ultrapassado Caetano Veloso que com suas regravações chegou ao extremo do mal gosto, podendo até manchar uma carreira brilhante de até um tempo atrás, e além do mais, deixem o Tom Jobim em paz.
Se fosse seguido o exemplo de Chico Buarque que percebendo que não atingiria mais o mesmo nível se afastou, nos legando uma obra perfeita e sempre atual; imanente, uma lenda viva.
Se por um lado alguns defendem a morte da arte e esta substituída pela arte midiática ou, a arte que está em tudo, como pode haver essa substituição se arte midiática é artificialmente estimulada pelos meios de comunicação, de maneira alienada?
Como? Se a arte é, por excelência, contestação?
Para ir contra essa corrente sou obrigado a concordar com Nietzsche quando ele diz:
“ E como poderia haver um ‘bem comum’? A palavra comum é sempre coisa de pouco valor.Finalmente, é preciso que seja como sempre foi: as grandes coisas são reservadas aos grandes, as profundas aos profundos, as delicadezas e os calafrios às almas sublimes, numa palavra, tudo que é raro aos seres raros.’
Para esclarecer o porquê desta citação, o que difere um show dos obsoletos Elton John, Madonna, dos atualíssimos Calypso, dos fenômenos sertanejos que aparecem de uma hora para outra, além dos bípedes cantores do funk carioca?
É preciso esclarecer o chamado grande artista da música, não é porque vendem mais discos ou aparecem mais na mídia porque vendem revista e dão audiência e por esse motivo são considerados mitos, como é o caso de Michal Jackson.
Santo bizarro! O que de tão grandioso ele representa para a música?
Uma fase nostálgica de sua infância em comum com a maioria dos cantores lançados pela Motown e o fenômeno de Billie Jean e Thriller, que visto hoje sem a emoção da época chega a ser tão cômico quanto os detentos das Filipinas quando o imitaram.
Depois disso além do declínio e os fracassos de venda o que o deixou em evidencia a não ser a excentricidade?
Alias, nisso ele foi um gênio, mas achar que superexposição pela polemica é sintoma de genialidade,é pecar contra o espírito santo, é pecar contra a arte.
É claro que esse diagnostico de infecção generalizada na música,e na arte em geral, é quase irreversível, dificilmente os Estados Unidos e alguns canais de televisão aqui no Brasil de tempos em tempos não nos apresentarão a nova moda, mas ainda existem alguns músicos escondidos que ainda são autênticos, que nos dão a música com ênfase a melodia, a poesia, a reflexão, mas se o sucesso aparecer sempre irão entrar em um dilema:
Ou vendem a alma para o diabo, ou sobrevivem no inferno.
Marcos Ribeiro
Verão de 2009

